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Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2025
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A gula pela fome, às vezes castiga...

Foi por pouco não ocorreu

José Luiz Ayres
Por José Luiz Ayres
A gula pela fome, às vezes castiga...
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A gula pela fome, as vezes castiga

 

Por Volta do início da década de 70, designado pela Direção Geral do órgão público federal onde exercia minhas atividades profissionais, a proceder à tarefa em levantar o patrimônio pertencente ao órgão, vez que haviam grandes falhas no setor patrimonial. Na ocasião, a tarefa me determinava algumas cidades do interior paulista a qual não me dava limitações ou previsões de encerramento, a durar o tempo que fosse necessário, onde as despesas, incluídas  às diárias, ocorreriam por conta da verba destinadas à alimentação, estadias e locomoção, desde que fossem comprovadas. Assim sendo, qualquer economia em meu favor seria sempre bem vinda obviamente.

             A partir dessa premissa, optei pela locomoção inicial a São Paulo na utilização do trem noturno Vera Cruz, ao invés do avião ou ônibus, a me beneficiar da economia no preço da passagem e aliar ao meu desejo, cuja saudade em curtir o trem era enorme, pois ha mais de 10 anos não desfrutava desse prazer de saudosas lembranças, quando também na infância, até Cruzeiro – SP, seguia a baldear ao sul de Minas pela ferrovia RMV – (Rede Mineira de Viação) levado por meus pais à cidade de Campanha de duas a três vezes ao ano em meio à década de 50.

  À noite da partida, lá estava eu à plataforma da Central do Brasil, quando o Vera Cruz se chega. Ali sentado ao banco, passei a observar a movimentação dos passageiros que se chegavam à procura dos seus vagões. No caso; havia as divisões: um carro correio, um restaurante, dois de cabines individuais, dois de cabines duplas e o ultimo carro; o conhecido como feirinha, por ser constituído de poltronas duplas  onde  os passageiros permaneciam apenas sentados, com conforto por ser as poltronas giratórias  até São Paulo. Óbvio que tais poltronas, durante o dia, seriam bem aceitas pelo panorama  a ser visualizado À porta dos vagões, um agente impecavelmente fardado, posicionava-se a verificar as passagens e encaminhar seus ocupantes às cabines por outro agente a conduzi-los internamente ao local. Eu, ali a observar a tudo, quando sou surpreendido por um cidadão, que espavorido se senta ao meu lado, um tanto ofegante e bufando, fala:- Poxa , que sorte ter chegado a tempo de embarcar, pois tive de última hora à necessidade de assim fazer, já que tenho de estar às 10 horas em São Paulo sem falta!

             Logo a seguir, soou a sirene à plataforma de 5 minutos à partida. Erguendo-me do banco a empunhar a mala, fui à direção do carro “ferinha”, seguido pelo tal cidadão “sortudo”, que também tinha sua passagem ao mesmo vagão.

             Acomodados às confortáveis poltronas, após o apito autorizando à partida, lá fomos nós tracionados à possante locomotiva elétrica a curtir pela janela às luzes da cidade às 23 horas e eu particularmente tomado por gostosa sensação e; porque não emoção, voltava-me ao tempo de infância quando às janelas de um vagão deliciava-me com a viagem ao sul de Minas.

             Perdido às lembranças, que passaram a fluir da mente a cada quilometro percorrido, via, embora o negrume da noite em contraste com as luzes internas acesas, dificultasse  à visão, as luzes urbanas das ruas, dos bairros e às poucas de algumas residências que se mantinham ainda acesas nos domicílios, em que à medida que se distanciavam da Central do Brasil, iam se apagando a deixar as localidades desertas onde esporadicamente uma pessoa, um veículo era observado. E assim o trem e o tempo ocorriam, quando finalmente chegamos à estação de Barra do Pirai, onde era efetuada a troca de locomotivas, saindo à eletrificada em pavor de uma a diesel, já que o percurso até São Paulo não era eletrificado. Esta troca demandava normalmente alguns minutos a se concretizar, independente dos embarques que aconteciam.

 De repente, o cidadão apressado, um tanto sonolento e confuso indaga-me se estávamos em Barra. Confirmando-o, a se dizer faminto, ergue-se apressado no intuito de chegar ao quiosque da estação, no que atribuir loucura

 e arriscado, pela distância do nosso vagão ao final da plataforma, em que teria de caminhar após descer, margeando os trilhos o que seria dificultoso. Não dando ouvido, lá foi o destemido e confiante no seu intento fustigado pela gula.

             Curioso e porque não preocupado, fiquei à porta do vagão a observar na escuridão o que iria acontecer. De súbito, não tardou após o tranco natural do engate da máquina à composição e logo a seguir ecoar pelo ar o silvo do chefe da estação a autorizar à partida, vejo o cidadão em desabalada carreira pela plataforma, descer aos trilhos, onde tropeçando ao pedregal do leito, desequilibrado, tenta chegar ao vagão quando o comboio se movimenta. Apavorado, passa a correr no sentido do trem a virar a cabeça, a fim de agarrar-se aos balaústres. Mas assim que o faz, infelizmente tropeça e cai. Lembro que disse: deixa a mala na estação!

Sentado a olhar a mala do destemido ao bagageiro superior do carro, ao lado da sua; agora vazia poltrona ergueu-me do lugar e a trouxe junto a minha. Ao chegarmos à cidade de Rezende, cujo Vera Cruz parou a aguardar à passagem de um cargueiro, se chega o chefe do trem na sua rotina de fiscalização e o contei sobre o cidadão e lhe passei a mala, que segundo informou, permanecera no setor de malas extraviadas à Estação da Luz em São Paulo por tempo indeterminado  à espera do seu dono.

Embora com quase 40 anos deste episódio, ainda o guardo bem vivo à memoria e que hoje me serve quando em momentos intempestivos  o tê-lo como lição, muito embora o cidadão não tivesse se utilizado, quando  na plataforma, entrando à porta de um vagão qualquer... Sem que se passasse pelo risco de ser atropelado pela composição, como  quase ocorreu ao cair a tropeçar no pedregal do leito em plena escuridão.

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José Luiz Ayres

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