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Quarta, 21 de abril de 2021
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Coluna

Nossa última viagem num noturno

Uma noite memorável...

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  1. Nossa última viagem num noturno

            Mesmo reconhecendo que o episódio venha um tanto fora dos padrões condizentes ao tema, a levar em conta a titularidade das crônicas, ou seja; Na Fumaça do trem, não posso me furtar em escrevê-lo, mesmo ocorrido há menos de 30 anos, numa viagem no já extinto expresso Flecha de Prata, que veio substituir o famoso noturno Vera Cruz (trem de aço) entre Rio de Janeiro e São Paulo da ex-ferrovia REFESA (Rede Ferroviária Federal).

            A empresa que arrendara a concessão do ramal junto a RFEFESA tornou este trajeto não um transporte comum como era efetuado, mas sim um roteiro turístico englobado em uma extensão a capital paulista em passeios, visitações a museus, simba safari, noitadas com jantares, shows, etc.., e pernoites em hotéis com o retorno no domingo às 23 horas, partindo toda sexta-feira também às 23 horas  do Rio de Janeiro.  O sucesso do projeto foi tanto, embora não fosse barato, que esperamos por quatro meses para efetuarmos o passeio.

            No dia previsto, lá fomos nós a ex-estação da extinta Estrada de Ferro Leopoldina Railway, cujo nome homenageou a um dos ícones das ferrovias no Brasil, o Barão de Mauá, ( Irineu Evangelista de Souza) que teve o seu título como reconhecimento a homenageá-lo a este magnífico patrimônio histórico de relevante significação a mostrar toda a sua beleza aos olhos dos que por ali passam, ainda bem preservado, mantendo seus arabescos e detalhes artísticos à fachada, a nos dar a sensação de estarmos na Europa. Por fim embarcados, lá íamos nós a curtir o prazer memorável do que seria como foi, a nossa última viagem num expresso noturno.

            Já no início da madrugada, com o silêncio imperando a cabine refrigerada, após a troca das locomotivas em Barra do Piraí, confortavelmente deitados à cama, cujo sono dava sinais contundentes da presença, escuto um murmurinho, onde vozes se sobressaiam pelo tom agudo, que me fizeram erguer da cama a observar o que havia. Dada à continuidade que me pareceu extrapolar a Lei do silêncio, optei por abrir a porta e então pude ver que uma confusão estava formada, em que um cidadão portando uma câmera filmadora a tudo registrava, mesmo sendo agredido por um careca de meia idade, completamente nu e uma mulher muito irada a agredi-lo entre tapas, socos e unhadas, que por sua vez era agredida por outra mulher também nua a deixar a cabine a puxá-la pelas madeixas a ponto de jogá-la ao chão passando a chutá-la. Vendo aquela cena de selvageria explícita, resolvi interferir, separando as duas mulheres que se engalfinhavam, bem como ser enérgico naquele momento a exigir respeito ao local. Felizmente obtive êxito já com a ajuda de um camareiro que se chegou a meu favor.

            Com a tensão e nos ânimos abrandados, a mulher agredida em prantos, talvez pelo que estava sendo  submetida diante de tanta humilhação, independente das agressões sofridas, manteve-se junto a porta da cabine  aberta, não permitindo que a fechassem, e passou a expor o motivo da confusão, a revelar que fora ultrajada ao flagrar  seu marido em plena orgia, se fartando de prazeres neste trem,  a dizer que o adúltero mentira, dizendo ter um   compromisso em Brasília na câmara dos deputados no fim de semana.

            Com a presença do chefe do trem e como havia danos corporais a “traída” e consequentemente ao pobre cinegrafista, a humilhada mulher exigiu que a ocorrência fosse registrada não abrindo mão dos seus direitos. De retorno à cabine, pude finalmente curtir a noite já passando das 2 horas da madrugada dentro da penumbra da cabine, onde, enfim, pudemos curtir nossa noite ferroviária degustando a cada gole de um delicioso espumante borbulhante em nossas bocas por esta realização há   tempo tão esperada e desejada...

            Moral da história:  O que aconteceu dali em diante, não sei. Afinal o careca era um deputado federal e, como tal, óbvio, possuía suas famigeradas “prerrogativas e abafar o caso era apenas mera formalidade de um “ilustre” parlamentar.  Já como diz o dito popular, “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”.

            Já passavam das 8 horas, quando o Flecha de Prata adentrou a Estação da Luz e nós juntados aos demais turistas, onde fomos conduzidos pela empresa promotora responsável aos nossos hotéis. Mas que a noite, fora o furdunço, foi excepcional e encantadora,  não temos o que contestar... Pena que esta viagem não possa ser repetida, pelo encerramento desta rota turística que a tantos foi um sonho realizado.

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