SÃO LOURENÇO ATUAL

Um caçador de pererecas!

Um caçador de pererecas!

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Mais uma vez me reporto ao saudoso chefe de trens, Miguel, a contar suas histórias, as quais trazem sempre bons episódios dignos de serem recordados e que os tenho em nossa coletânea. Assim sendo, obviamente me utilizo de um fato, que de certa forma causou enorme repercussão; não só por aqueles que presenciaram, mas junto ao pessoal da ferrovia, tal a desenvoltura que o evento inusitado provocou pela raridade do fato em si, e como à maneira com que Miguel o absorveu sem perder a imperturbável serenidade.

Subia a serra da Mantiqueira o expresso da tarde, tracionando além dos vagões de costume, o vagão especial conduzindo os passageiros destinados ao Hotel Cassino de Caxambu, quando em determinado momento, Miguel que àquele instante inspecionava o suntuoso vagão, é pego de surpresa por um grito de uma elegante mulher, que o havia indagado sobre o toalete minutos antes, assim que penetrou no vagão a conferir os bilhetes especiais. Assustando-se, como os demais passageiros, apressou-se em chegar à porta do toalete, onde outros gritos se fizeram ouvir. Não perdendo tempo, acionou a maçaneta e a porta não se abriu; estava trancada. Forçando-a, de súbito se escancara e, estarrecido, depara-se com uma cena “inimaginável”. Colada ao madeiramete, a mulher cujo semblante mostrava-se apavorante, com os olhos quase a saltarem das órbitas, tinha sua vestimenta elevada à altura da cintura com suas peças íntimas arriadas aos joelhos a mostrar a genitália, desnuda. Apontando com o dedo da mão que se segurava ao balaustre do toalete o possível lugar, num sussurro quase inaudível diz: -- Uma perereca! Tire-a daí!

Miguel estático e boquiaberto direciona o olhar ao suposto local e vê sobre os pêlos pubianos o pequeno batráquio que se camuflava com a coloração da região, só observado através dos pequenos movimentos que efetuava. Sobre o impacto da cena, olha a pobre mulher e pede que a tire, pois o bicho não morde. Como não o obedeceu, e, sem saber como agir, já que o local mal dava para ambos e o espaço reduzido dificultaria a “operação resgate”, Miguel pedindo desculpa por ter que tocá-la, agacha-se e com as pontas dos dedos, como pinça, segura o animal e tenta desalojá-lo, evitando puxar os pêlos. Só que por essa delicadeza não obteve sucesso, vez que suas ventosas das patas mantinham-se aderida à pele pela sucção. Com mais coragem, com auxilio da mão esquerda, procurou afastar mais os pêlos e com um puxão, mesmo sob pressão da perereca, conseguiu sacá-la após urros e gemidos da desafortunada mulher.

Erguendo-se, tendo o bicho pinçado aos dedos, mostra-lhe ainda colados as patas fios de pêlos pubianos. Com a perereca à mão, deixa o toalete a fechar atrás de si a porta, a dizer aos preocupados passageiros que tudo não passou de um susto e que todos se acalmassem, pois coisas deste tipo são comuns a nós, os interioranos, e novidades a vocês das grandes cidades. Abrindo a porta da varanda, lançou a pequenina perereca sobre a vegetação margeante à linha férrea, pois provavelmente havia se mantido bem assustada ao se utilizar de uma “vegetação” bem diferente a do seu habitat.

Retornando ao vagão a dar seguimento à rotina, lá foi Miguel a executar a sua tarefa como se nada houvesse ocorrido; no que pese ao passar pela tal mulher, vítima da perereca, receber seus agradecimentos pela sobriedade e respeito e acima de tudo a dignidade como homem, diante de um momento tão insólito e delicado.

Porém, só uma coisa causou desagrado a Miguel; ou seja, as línguas ferinas. Não é que houve repercussão do episódio? Como foi possível tal coisa, se no vagão o fato não foi comentado e muito menos visto por alguém? É”..., provavelmente, aquele exemplar batráquio era um macho e resolveu espalhar, ‘coaxando” a sua aventura pelo brejo, a chamar à atenção sobre as outras pererecas, que “enciumadas”, procurariam se esquivar de seu possível novo assédio!

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