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Segunda, 17 de maio de 2021
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Coluna

Um encontro nunca imaginado...

Mas foi real e verdadeiro

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Um encontro nunca imaginado!!!

           

Depois de uma gostosa caminhada pelo centro da cidade serrana fluminense de Vassouras, àquela manhã fria de final de inverno, optei por me ocupar de um dos bancos da agradável e bem cuidada praça, onde imponente se destacava ao alto a secular matriz rodeada às ruas laterais com um belíssimo e preservado casario estilo colonial, a contar a história da cidade, que por vários anos no auge da cultura cafeeira reinou soberana por toda região.

 

            Abancado, a visualizar aquele belo patrimônio, a imaginar em devaneios como deveria ter sido sua projeção a galgar o topo de uma importante economia, a ponto de se tornar cobiçada por proeminentes figuras ligadas à corte, com aquisições de grandes fazendas conhecidas como: baronatos e condados, a figurar-se como um esteiro na economia brasileira.

 

            Curtindo cada momento histórico, agora a integrar-me à realidade atual, fiquei a observar o cotidiano do município com o vai-e-vem das pessoas a caminho de seus trabalhos a misturar-se à infinidade de jovens estudantes, caracterizados pelos seus apetrechos escolares, no rumo dos seus colégios e universidades num “frenesi” saudável de fazer inveja. De repente, sem que houvesse observado, dado talvez ao desligamento momentâneo, deparei-me posicionado ao banco frontal, um senhor que sentado tinha uma cesta de bambu ao lado. Fixando-o, por curiosidade, fiquei ávido em saber o que continha a cesta, pois algumas pessoas, ao passarem, paravam e compravam seu produto a conduzi-lo num saco plástico.

 

            Já refeito da caminhada, tendo o sol a fustigar-me, resolvi deixar o local e seguir a direção da matriz. Porém, tomado pela curiosidade, fui até o senhor, que ao ver-me, indagou se queria jabuticaba, pois estavam bem doces e saborosas e me ofereceu algumas para provar. Agradecendo, declinei no oferecimento e nos pusemos a prosear, onde dizia ser natural de Sacra Família (distrito de Vassouras) e que há anos a compor sua mísera aposentadoria, vendendo suas frutas de época aqui em Vassouras. Ao fixar-me ao senhor; identificou-se como Sebastião, que sob chapéu de palha surrado, um óculos de armação redonda tendo uma das hastes afixadas com esparadrapo, delineado por um semblante em que rugas e vincos marcavam o implacável peso da idade, por momento não tive dúvida que o conhecia e já havia o visto em algum lugar. Mas de onde, se há anos não visitava Vassouras? Rebuscando a memória, tentei, repassando o passado quando criança pela região estive a percorrer, inclusive nos utilizando do velho trem; independente do nosso Buick 50, pois papai evitava transitar pela velha, esburacada e poeirenta estrada até Vassouras.

 

            Em conversa animada, Sebastião empolgado, entre uma venda e outra de jabuticabas, pôs-se a recordar da vida; na oportunidade com 84 anos, a contar que depois de iniciar-se como empregado no Laticínios Vassourense em 1948, aos 16 anos e por 35 anos ali permaneceu onde aposentou-se e passou a vender suas frutas cultivadas em sua roça.

 

            Ao mencionar o nome do laticínio, liguei-me à lembrança de um cidadão que à estação Governador Portella, local de bastante movimentação por tratar-se de um entroncamento férreo, vivia a vender aos passageiros que ali transitavam e aos embarcados um produto que anunciava numa voz engraçada, meio fanhosa: “Olha o requeijão Vassourense”. Este cidadão, me recordo, lembrava muito, tanto na voz como na figura física em si, um imortal personagem criado pelo grande Chico Anísio levado ao ar pela extinta TV-Rio na época. Devido à semelhança, passamos a chamá-lo, eu e minhas irmãs, de Santelmo.

 

            Com a charada quase “matada”, no que pese a presença dos traços fisionômicos um tanto descaracterizados, mesmo com a crueldade da idade, indaguei a Sebastião se por acaso conhecia ou conheceu um cidadão que vendia o Requeijão Vassourense à estação de Portella, vestido sempre de branco, trazendo no bolso do guarda-pó o nome em vermelho do laticínio e um boné à cabeça. Um tanto surpreso, espantando-se ao olhar-me após aproximar-se ao meu rosto, respondeu: - Não me lembro de você, mas essa pessoa que você falou sou eu, pois trabalhei por algum tempo vendendo pelo laticínio, ali em Portella, não só requeijão, novidade na época para concorrer com o famoso catupiry, como queijos e manteigas. Poxa, já se foram quase 50 anos e você lembra e me reconheceu?

 

            Olhando-o a esboçar leve sorriso no intuito de elevar seu ego e autoestima, falei: - O senhor não mudou nada, continua com a mesma aparência como no tempo dos saudosos e inesquecíveis trens a vender seus requeijões vassourenses. Fiquei emocionado e feliz em revê-lo. Fica com Deus. Tchau, amigo Santelmo; digo, Sebastião!

 

            Caminhando à direção da matriz, boquiaberto, parei, olhei para trás e em voz, não fanhosa, pensei alto e falei: - Caramba, eu nunca imaginei ter esse encontro e muito menos lembrar da figura do Santelmo!

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